Salvador Dalí, pintor surrealista espanhol, dizia que “o bom artista não deve servir de inspiração, mas sim inspirar os que o rodeiam”. Nessa frase, o artista plástico Cláudio José Tozzi se encaixa como chave em fechadura. Nascido em 1944, o paulistano é difícil de decifrar, simples e ao mesmo tempo complexo. E é por meio de tais contradições que, sem perceber, deixa fluir suas principais características ao longo de uma conversa confortável no sofá de seu ateliê, no bairro Perdizes, zona sul de São Paulo.
Como consequência às raízes familiares de classe média intelectual, Tozzi é dono de um belo vocabulário. A fala baixa e mansa puxa a atenção para seu rosto, que afirma com verdade no olhar as palavras que diz. Casado com a arte, tema principal da entrevista, o artista limita-se quando a conversa estende-se ao pessoal. Cita seu pai ao falar de influências e se atém a sorrisos envergonhados sobre amores e filhos.
Revela que o estilo calmo é resultado do trabalho. Por incrível que pareça, ele passa cerca de doze horas pintando, produzindo, pensando diariamente e, ainda assim, consegue manter o equilíbrio entre corpo e espírito. “O cérebro não pode parar. O que faço não é trabalho. Trabalho é chato, é obrigatório, cansa. A arte é diversão e me inspira, me dá vontade de viver mais uns 100 anos só para pintar. Por isso não aparento quase sete décadas, aparento?”, brinca esperando uma afirmação negativa.
Caso a rotina fosse retratada em tela, as tintas, recortes, quadros, poltronas, mesas de todos os tipos com cinzeiros e café seriam frequentes – com paisagem verde de fundo, de preferência. Dessa forma, o ateliê é um “refúgio da terra de arranha céu”. Embora esteja ligado diretamente com a cidade e os problemas que a envolve, o artista necessita de paz e natureza para retratá-la com fidelidade.
Desde muito pequeno revelou gosto por pintura abstracionista de qualidade e, com o apoio da família, formou-se pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo (FAU-USP) em 1963, onde iniciou as atividades como artista plástico aos 22 anos.
Estudos, amigos e a arte pela arte
“Os tempos de faculdade foram os melhores. Lá me diverti, fiz amizades, conheci bons profissionais e pessoas que afloraram minhas ideias e pensamentos”, lembra o artista, com certa saudade. Segundo ele, a faculdade proporcionou a visão crítica que inspirou sua arte, além de juntar o dinheiro que construiu sua vida. “Era empolgante estudar, pois os jovens eram produtivos, sagazes e tinham vontade de virar o mundo de ponta cabeça.”
Pelo visto, a vontade de Tozzi não foi diferente. Em suas primeiras obras revelou com o pincel o que tentava esconder nas palavras. O caráter “crítico-contestador” e a vontade de mudanças eram evidentes, sem ter necessidade de pesquisar a idade do artista para constatar os vinte e poucos anos de rebeldia por conta da repressão, e talento por conta da natureza.
Ancorado na Pop Art que chegara à América Latina ainda nos anos cinquenta, Tozzi desenvolveu telas com características dos meios de comunicação de massa. Para atingir um público variado produziu séries em quadrinhos, como Bandido da Luz Vermelha (1967), que destaca elementos do dia a dia com certa ironia. “Pela pintura utilizava a linguagem informal para mostrar indignação à sociedade, em todos os aspectos. Mas isso causou polêmica e incomodou muita gente, como qualquer atitude contrária ao modo de produção”, relembra.
Tinta a óleo misturada à polêmica
Os traços fortes de sua personalidade intimista foram bem representados ao longo da obra. A ditadura inquietava Tozzi, e foi pela contínua perturbação que elaborou projetos contestadores à corrente direitista. “Aquela masturbação mental me provocava diariamente. Já não conseguia parar de pensar em como provocá-los também”.
Um dos projetos ganhou atenção especial. O painel Guevara Vivo ou Morto foi exposto em 1967, no Salão Nacional de Arte Contemporânea, em Brasília, e destruído por grupos de extrema direita logo após a exposição. “A atitude que vi em relação a minha obra, só provou a ignorância e impotência racional de quem comandava”, opina o artista ainda com tristeza no olhar. “Restaurei o painel em seguida e me debulhava em lágrimas a cada marca de machadada. Foi muito triste”.
A tristeza abre espaço para os sorrisos quando Tozzi conta sobre sua viagem de estudos à Europa, ainda em 1969, onde ficou por dois anos. Dessa vez, o menino rebelde e com nervos à flor da pele conhecera novas tendências e profissionais que amadureceram seu talento. Ao voltar para o Brasil, o artista trouxe grandes novidades sobre cores, formas e tendências que revolucionaram sua arte.
Com isso passou a realizar o trabalho que mais admirava: o abstrato. A dificuldade estava no reconhecimento. “O Brasil não é um País que dê valor completo para a arte. Os artistas jovens mal podem expor seus trabalhos. Então passei a frequentar feiras, exposições e tudo relacionado ao tema”. Como já conhecia bastante pessoas, não foi difícil firmar-se no meio e garantir sucesso. Os painéis das estações Sé e Barra Funda do metrô são frutos disso.
Maturidade e ordem
Os tempos agitados haviam acabado e o sucesso estava firmado. O que Tozzi poderia querer mais?
Não contente com a fama e os milhares de reais que telas e painéis haviam rendido, foi à caça de novas formas de pintar. O resultado foi positivo e lhe fez conhecer as instalações, que agora fazem parte de seu acervo, marcado por ordem cronológica de suas tendências.
“Nada me faz parar. Tive diversas tendências ao longo de quase 45 anos de artista. O meu prazer está em fazer a arte, não reproduzi-la.”